Desabafo: as indagações que teimam em não sair da minha cabeça

É com profunda tristeza que me dirijo a vocês para manifestar a minha indignação com tamanha intolerância religiosa. (Mais à frente, entenderão o motivo).

Até quando viveremos esta guerra para ver quem está salvo de toda danação, pois segue os evangélicos e quem é do mundo (como costumam se referir ao resto)? Resto no qual eu, como católico, e muitos outros, que pertencem a outras crenças são incluídos. O que querem os pastores e demais líderes religiosos que, em vez de apoiarem a boa convivência entre os mais diferentes credos, preferem propagar e incentivar a intolerância? Estimular o ódio a um irmão? Incendiar as massas que procuram dentro de seus respectivos templos a sua religião – o seu sustento espiritual através de um encontro com um Pai maioral?

Não é assim que se arrebanha fiéis, ou pelo menos, não deveria ser assim. Aqueles que, de fato, querem fazer crescer sua Igreja, não devem querer se sobrepor as demais crenças na base da diminuição da sua concorrente. Como católico, não estou aqui defendendo a minha instituição religiosa. Sei que ela também tem seus erros. Que o diga a Inquisição que matou tanta gente, por causa de fanatismo e de falta de compaixão com o próximo!

E para não dizer que estou me resumindo a esta guerrinha ridícula entre católicos e evangélicos; todas – digo e repito, que é para deixar bem claro – todas as religiões têm os seus defeitos e seus acertos. Aquele que nunca cometeu o seu pecado, que atire a primeira pedra! Mas nenhuma delas tem o direito de se achar superior às outras. Nenhuma delas deve se achar acima do Bem e do Mal, dizendo que só estão salvos do pecado aqueles que a ela se renderem. E quem não crê? Não tem direito? Onde foi parar a liberdade de expressão e de crença?

Se a pessoa que não crê será ou não castigada depois da morte ou mesmo durante a vida; se ela é mais ou menos merecedora do Reino dos Céus. Isso não é da nossa conta. De que adianta pregar os bons costumes sendo pertencente a uma religião, a uma entidade, e não praticá-los com o fervor que os aconselha? O que dizer então, de um ateu que vive uma vida de boas obras e da prática do amor ao próximo? Ele merece ser condenado ou posto à margem da sociedade por isso?

Agora, mais especificamente como jornalista e cidadão, questiono: até quando viveremos a lei da mordaça que certas instituições insistem em perpetuar no Brasil? Simplesmente, porque uma jornalista da revista Época escreveu um artigo falando sobre a intolerância em relação aos ateus, ela foi atacada de maneira desproporcional pelo Pastor Silas Malafaia, que a chamou de vagabunda numa entrevista para o The New York Times.

Até quando pessoas como este senhor vão ter o direito de falar de forma tão grotesca com os outros e sobre os outros? Que moral tem ele, por exemplo, para julgar os gays, que apenas defendem o direito de ser quem são, sem precisar ficar escondendo aquilo que sentem?

O que fica disso tudo, não é uma lição de moral ou um sermão. Quem sou eu? Tenho meus erros e não são poucos. Estou longe de ser santo e não tenho pretensões de ser beatificado ou me tornar exemplo de bom mocismo. Sou mesmo errante e orgulhosamente humano, sujeito às imperfeições que os ventos da vida me levam a carregar comigo. Procuro apenas errar o mínimo possível. Mesmo assim, este mínimo esta longe do que talvez muitos julgassem aceitável. Simplesmente porque sou feito de carne e osso e nunca vou chegar perto da perfeição do Criador. Quero apenas praticar o bem, sem olhar a quem. Quero dar o que tenho de melhor e saber pedir desculpas quando notar que errei.

Apenas o que pretendo deixar registrado com tantas indagações é a minha indignação com tamanha falta de respeito e, principalmente, com tamanha intolerância religiosa e até mesmo social. Questões como a dos gays e outras mais, que ficam evidentes no próprio artigo do New York Times.

Abaixo disponibilizo, inicialmente, uma nota recebida via e-mail do site Clube do Jornalismo. Na sequência, vocês poderão ler a íntegra da reportagem de Simon Romero, publicada no último dia 25 de novembro, no jornal The New York Times, mencionada pela nota do Clube. Finalmente, disponibilizo o link do artigo de Eliane Brum, da revista Época – veiculado no dia 14 de novembro deste ano.

Texto veiculado pelo Clube do Jornalismo – 28/11/2011

Pastor Silas Malafaia ofende jornalista Eliane Brum em entrevista ao The New York Times

O pastor da Assembleia de Deus, Silas Malafaia, chamou a jornalista Eliane Brum de “vagabunda”, em entrevista ao The New York Times, publicada na última sexta-feira (25).

Ele ofendeu Eliane em razão de um artigo no site de Época, em que a jornalista abordou a intolerância com pessoas ateístas por parte dos adeptos às “novas fés”, referindo-se ao crescente número de fiéis às igrejas evangélicas, “em uma disputa cada vez mais agressiva por fatias no mercado entre as grandes igrejas”.

Na entrevista ao NYT, que aconteceu em Fortaleza (CE), o líder evangélico insultou Eliane e disse que os “comunistas ateístas” na ex-União Soviética, Camboja e Vietnã foram responsáveis por “mais mortes” do que “qualquer guerra produzida por questões religiosas”.

O artigo de Simon Romero, que menciona reportagens publicadas nas revistas Época e Piauí sobre o “personagem”, fala da figura controversa e influente, religiosa e política do pastor dentro do contexto de crescimento das fés pentacostais e das igrejas que constroem “impérios” no País.

Malafaia se considera o “inimigo número um do movimento gay” e ataca as leis que visam a descriminalizar o aborto e as drogas.

Eliane respondeu à ofensa, com uma nota publicada nesta segunda-feira (28), junto com a coluna “Nossa Sociedade”, na Época:

“Em minha coluna de 14/11, intitulada ‘A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico’, escrevi sobre o crescimento da intolerância religiosa na vida cotidiana brasileira, com a multiplicação das novas igrejas pentecostais nas últimas décadas. Indagado sobre o meu artigo em uma entrevista ao jornal The New York Times, o pastor Silas Malafaia me chamou de ‘tramp’. A palavra de língua inglesa significa ‘vagabunda’. A afirmação do pastor é autoexplicativa: ao atacar minha honra por discordar de minhas ideias, ele proporciona a maior prova do acerto e da relevância do meu artigo.”

THE SATURDAY PROFILE

Evangelical Leader Rises in Brazil’s Culture Wars

By SIMON ROMERO

Published: November 25, 2011

SILAS MALAFAIA’s books, which sell in the millions in Brazil, have titles like “How to Defeat Satan’s Strategies” and “Lessons of a Winner.” The Gulfstream private jet in which he flies has “Favor of God,” in English, inscribed on its body.

As a television evangelist, Mr. Malafaia reaches viewers in dozens of countries, including the United States, where Daystar and Trinity Broadcasting Network broadcast his overdubbed sermons. Over 30 years, Mr. Malafaia, 53, has assembled thriving churches and enterprises around his Pentecostal preaching.

Still, he might have garnered little attention beyond his own followers had he not waded into Brazil’s version of the culture wars. After all, Brazil has evangelical leaders who command larger empires, like Edir Macedo, whose Universal Church of the Kingdom of God controls Rede Record, one of Brazil’s biggest television networks. Others, like Romildo Ribeiro Soares, of the International Church of God’s Grace, are known for greater missionary zeal.

But it is Mr. Malafaia who has recently attracted the most attention, with his pointed verbal attacks on a broad array of foes, including the leaders of Brazil’s movement for gay rights, proponents of abortion rights and supporters of marijuana decriminalization.

“I’m the public enemy No. 1 of the gay movement in Brazil,” Mr. Malafaia said in an interview this month here in Fortaleza, a city in Brazil’s northeast where he came to lead one of his self-described “crusades,” an event mixing scripture and song in front of about 200,000 people. Tears flowed down the faces of some of the impassioned attendees, while others danced to the performances that served as his opening act.

Before ascending to the pulpit, he described how coveted he had become on television talk shows as a sparring partner with gay leaders. But that is only a small part of his repertoire, and television is just one of many media at Mr. Malafaia’s disposal. On Twitter, he has nearly a quarter of a million followers, and in videos distributed on YouTube, he lambastes not only liberal foes but also journalists and rival evangelical leaders.

Not surprisingly, his rising prominence has made him the source of both admiration and unease. He mobilized thousands to march in the capital, Brasília, this year against a bill aimed at expanding anti-discrimination legislation to include sexual orientation.

“He’s like Pat Robertson in the sense of being a pioneer in moving Brazil’s evangelical right into the national political realm,” said Andrew Chesnut, an expert on Latin American religions at Virginia Commonwealth University, comparing Mr. Malafaia to the conservative American television evangelist.

Brazil’s elite is seeking to understand the rise of such a polarizing figure, and how it might influence the nation’s politics. Piauí, a magazine that is the rough equivalent of The New Yorker in the United States, ran a lengthy article this year on Mr. Malafaia’s rise from obscurity in Rio de Janeiro, where he grew up in a military family, to the power he now wields.

BEYOND Mr. Malafaia, the broad expansion of evangelical faiths, particularly Pentecostalism, in recent decades is altering Brazil’s politics. (While Pentecostalism varies widely, its tenets in Brazil include faith healing, prophecy and exorcism.) Leaders in Brasília must now consult on a range of matters with an evangelical caucus of legislators with resilient clout.

About one in four Brazilians are now thought to belong to evangelical Protestant congregations, and Pentecostals like Mr. Malafaia are at the forefront of this growth. In a remarkable religious transformation, scholars say that while Brazil still has the largest number of Roman Catholics in the world, it now also rivals the United States in having one of the largest Pentecostal populations.

Not everyone in Brazil is enthusiastic about this shift.

In a November essay, the journalist Eliane Brum wrote of the intolerance shown toward atheists in Brazil by some adherents of born-again faiths, describing what she called the “ever more aggressive dispute for market share” among big churches.

Ms. Brum’s essay unleashed a wave of reactions from Pentecostals. Mr. Malafaia’s words were among the most caustic.

During the interview here, he called Ms. Brum a “tramp,” and repeated his contention that “communist atheists” in the former Soviet Union, Cambodia and Vietnam were responsible for more killings than “any war produced for religious questions.”

Whether by design or default, his aggressive language has often become a spectacle. In November, Época magazine reported that Mr. Malafaia, during heated comments about taking legal action against Toni Reis, a prominent gay-rights advocate, said he would “fornicate” Mr. Reis.

Mr. Malafaia fired off an explanation that he had actually said he would “funicate” Mr. Reis. While researchers were unable to find Mr. Malafaia’s word in reference dictionaries, he said it was slang that roughly translated as “trounce.”

The visibility Mr. Malafaia achieves from such episodes has fueled questions about his political ambitions. He said he had no desire to run for office because it could make him beholden to a specific political party, thus curbing the broader visibility he now has.

“God called on me to be a pastor,” he said, “and I won’t exchange that for being a politician.”

But political influence is another matter. Mr. Malafaia said he voted twice for Brazil’s former president, Luiz Inácio Lula da Silva, and for years enjoyed access to Brasília’s corridors of power. But he also related an anecdote about Mr. da Silva’s successor, President Dilma Rousseff, that suggests how important evangelical figures are becoming in national elections.

He said she spoke with him by telephone for 15 minutes during last year’s presidential campaign, trying to lure his support. But he said he refused because of ideological differences with parts of the governing Workers Party of Mr. da Silva, a former labor leader, and Ms. Rousseff, a former operative in an urban guerrilla group.

“I told her, ‘I don’t have anything personal against you. I think you’re an intelligent, qualified woman,’ ” he said. “ ‘But how can I vote for you if I spent four years fighting with the group from your party supporting a bill to benefit gays, thus hurting me?’ ”

MR. MALAFAIA, while stabbing the air with fingers adorned with diamond-encrusted gold rings, delivers such tales in booming Portuguese with a thick Rio accent.

His persona has given him almost rock-star status among some supporters.

“I didn’t recognize him without his mustache,” said Erineide Mendonça, 39, an employee at the Fortaleza hotel where Mr. Malafaia was staying, referring to the trademark facial hair that he shaved not long ago. “But I recognized his voice,” she said, asking to be photographed with the evangelist she adores.

Both Mr. Malafaia and his wife, Elizete, were trained as psychologists, and when he rises to the pulpit, his voice echoes in sermons laden with lessons of self-help and perseverance.

A favorite theme involves success and how to attain it. While he contends that he still lives relatively humbly and is not even a millionaire, he makes no apologies for his own material rise. In fact, he celebrates it, touting, for instance, his Mercedes-Benz — a gift, he explains, from a prosperous friend.

Then there is the Gulfstream, acquired secondhand in the United States, he said, not by him but by his nonprofit religious organization at a reasonable price.

“The pope flies in a jumbo jet,” he said, referring to the chartered Alitalia plane that carries the bishop of Rome, and chafing at what he viewed as a double standard with which Brazil’s ascendant evangelical leaders must contend. “But if a pastor travels in any old jet, he’s considered a thief.”

Link: http://www.nytimes.com/2011/11/26/world/americas/silas-malafaia-tv-evangelist-rises-in-brazils-culture-wars.html?pagewanted=1&_r=3&ref=world


Link do artigo “A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico”, de Eliane Brum, da revista Época – 14/11/2011

http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2011/11/dura-vida-dos-ateus-em-um-brasil-cada-vez-mais-evangelico.html

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2 respostas para Desabafo: as indagações que teimam em não sair da minha cabeça

  1. joão maia disse:

    Nós que servimos e seguimos somente ao Cristo ressucitado, pedimos desculpas à todos, pela vergonha que nos foi imposta. Estamos orando para que ele volte-se para Jesus e para os princípios bíblicos genuínos, os quais não devem ser distorcidos em hipótese alguma, principalmente para os fins aos quais temos visto. ” Porque, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós.” romanos 2. 24

    • brhaussmann disse:

      Prezado João,

      Fico feliz que pense assim. Como diria a música: “Se todos fossem no mundo iguais a você/Que maravilha viver…” Você deu uma bela prova de que ainda podemos encontrar respeito entre as religiões. Esse é o fundamento sobre o qual uma sociedade que almeja o progresso, e se pretende civilizada, deve repousar.

      Cordialmente,
      Bruno Haussmann

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